BATE-PAPO com o professor e escritor Milton Hatoum: “o maior poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, ficou fora da Academia”

O lançamento da seção BATE-PAPO não poderia ser melhor. A entrevista exclusiva com Milton Hatoum foi realizada na Biblioteca Pública de Várzea Paulista, na noite de quarta-feira (8 de junho). Foi um bate-papo descontraído e com esta postagem terminamos nossa cobertura da passagem de Milton Hatoum na cidade.

Milton Hatoum foi professor de literatura francesa da Universidade Federal da Amazônia e é professor visitante de literatura brasileira na Universidade da Califórnia . Sua carreira de escritor já começou com um dos mais importantes prêmios literários do Brasil, o Jabuti. Seus livros estão traduzidos em diversas línguas. Além das tramas de seus romances estarem situadas em Manaus, sua cidade natal, o autor se inspira em sua origem libanesa e faz a reconstrução desta imigração na cidade ainda no início do século.

Entre suas obras premiadas estão os romances: ‘Relato de um Certo Oriente’ (1989) e ‘Dois irmãos’ (2000), agraciadas pelo Jabuti, o mais importante prêmio literário do Brasil . Em 2008 publicou Órfãos do Eldorado e em 2009 o livro de contos A Cidade Ilhada. O escritor é também colunista do jornal O Estado de S. Paulo e do site Terra Magazine. O professor que vem dando enorme contribuição para a literatura brasileira é considerado pela crítica “uma das vozes mais importantes de sua geração”.

A ENTREVISTA

Osvaldenir Stocker – Boa noite Milton! Como é estar na biblioteca de uma pequena cidade e falar para mais de cem jovens?

Milton Hatoum – Se hoje eu fosse jovem e passasse Ferreira Gullar na minha cidade, Manaus, que é enorme, mas distante de tudo, eu queria vê-lo com certeza, como vi na minha juventude o Glauber Rocha, como vi Sartre quando passou por Manaus e despertou curiosidades nos jovens.

Stocker – Como você vê o projeto Viagem Literária?

Milton – É um projeto válido. É uma forma de falar sobre literatura em cidades que geralmente os escritores não passam com freqüência. Normalmente os eventos são nas capitais e não no interior.

Stocker – E como está sendo esta experiência?

Milton – Uma coisa legal que constatei é saber que tenho leitores no interior mais profundo de São Paulo. É um estado que tem universidades importantes no interior, como a Unicamp e a UNESP. É um estado bem qualificado no ponto de vista de bibliotecas. Investiu nisso.

Stocker – Tem encontrado seus livros nestas bibliotecas?

Milton – Sim, tenho visto meus livros por aí.

Stocker – E como tem sido os encontros com os jovens?

Milton – Tem sido muito legal esta relação com jovens leitores. Já participei da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), de vários festivais de literatura, mas o que eu gosto mesmo é da escola e da biblioteca. Os leitores não estão nestes lugares por glamour. A única razão é falar de literatura.

Stocker – Você gosta de separar o que é literatura e o que é livro de autoajuda. Fale um pouco sobre isto?

Milton – Há uma grande enganação aí. É um absurdo, as pessoas não podem ser enganadas. Você não pode confundir um bestseller qualquer, um produto americano que já chega pronto, que foi escrito para ser filmado e passar no shopping Center. É tudo um pacote de lixo. Isso não é nada.

Stocker – Então isso não é literatura?

Milton – Literatura é outra coisa. É Guimarães Rosa, é Graciliano Ramos, é Nelson Rodrigues, Osman Lins, Érico Veríssimo e tantos outros escritores e poetas brasileiros.

Stocker – Seria uma imposição mercadológica?

Milton – É um acinte, é uma impostura. As pessoas não merecem isso. Não merecem ser enganadas. Então eu sempre falo da diferença entre estes bestsellers e literatura.

Stocker – Não sabia que o poeta Ferreira Gullar havia cancelado sua participação em Campo Limpo Paulista. Fale um pouco sobre ele.

Milton – Infelizmente ele teve que cancelar. Ferreira Gullar na minha opinião é o maior poeta vivo de língua portuguesa. E não é pouco. Ele é um grande poeta e também um grande crítico de arte.

Stocker – Como é conquistar um grande público de leitores, sem escrever livros de autoajuda?

Milton – Acho que meus romances caíram nas graças dos professores. Sobretudo Dois Irmãos. Foi um livro que começou, primeiramente, a ser lido pelos professores e trabalhado em salas de aula das escolas e universidades.

Stocker – Vestibulares também?

Milton – Sim, inclusive vestibulares.

Stocker – Somente Dois Irmãos?

Milton – Sobretudo ‘Dois Irmãos’ participou da lista. Mas também ‘Relatos de um Certo Oriente’, ‘Órfãos do Eldorado’ e até ‘A Cidade Ilhada, O livro de contos, hoje está na lista de vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina. Agora, o ‘Dois Irmãos’ é algo surpreendente.

Stocker – Esteve na lista dos mais vendidos. Qual foi o tempo até alcançar este sucesso?

Milton – Não foi um bestseller instantâneo. Isso foi acontecendo aos poucos.

Stocker – Como assim?

Milton – É um livro que não pára de ser lido.

Stocker – Quantos leitores diretos até hoje?

Milton – Ele foi publicado em 2000, portanto, em onze anos já alcançou um público de 150 mil leitores diretos, fora os livros emprestados.

Stocker – O que representa este número no Brasil?

Milton – Um bestseller. Para os padrões brasileiros é muita coisa.

Stocker – E seus outros livros?

Milton – Os outros títulos estão até com ciúmes de Dois Irmãos. (risos)

Stocker – Percebo que seus romances são bastante densos e também que há um cuidado primoroso com a ética e com a estética. É uma exigência do seu público?

Milton – Primeiro é uma exigência minha. Mas acho que agora deve ser do público também.

Stocker – Você acha que aumentou a responsabilidade na hora de públicar suas obras?

Milton – Eu acho que não posso, não quero e nem devo publicar qualquer coisa.

Stocker – Existe alguma perceptiva ideológica neste compromisso ético?

Milton – Nem de longe meus livros têm uma mensagem ideológica. Mas eles têm um compromisso ético. Quando falo do regime militar, mesmo que seja como plano de fundo, não é para exaltá-lo e, certamente, para criticá-lo.

Stocker – O leitor percebe isto?

Milton – Eu acho que percebe e acompanha o meu trabalho sempre com esta expectativa de não publicar abobrinha.

Stocker – Tem muito gato passando por lebre?

Milton – Eu diria que tem muitos gatos que passam por livros (risos). Falam de crise na literatura. Não tem crise! Tem excesso de livros.

Stocker – Seus romances têm prêmios importantes, como o Jabuti. Você escreve pensando nestes prêmios?

Milton – Não! Eu nunca pensei em prêmios. Quando terminei de escrever meu primeiro romance, eu estava tão isolado, tão depauperado na minha vida de professor lá em Manaus, vivendo uma situação tão precária, que nem passou pela cabeça. Primeiro, que eu não conseguia nem publicar o meu manuscrito. Quando ganhei o prêmio de melhor romance me convidaram para recebê-lo em São Paulo. Só que não davam passagem, Então não fui.

Stocker – Chegaram a falar em vaidade da sua parte...

Milton – Eu era um professor. Minha vaidade não chega a tanto. Minha vaidade nunca voou muito alto. O que mais me orgulha é o bom leitor. Isso me orgulha mais do que ganhar todos estes prêmios que ganhei. E não foram poucos. O que justifica a literatura é o bom leitor.

Stocker – E aquele Jabuti na instante?

Milton – Sem a resposta do leitor ele é um Jabuti triste de bronze. Você olha para ele e não acontece nada. Quando há uma resposta do leitor crítico, aí vale a pena o prêmio.

Stocker – E a literatura contemporânea?

Milton – Muita gente escreve, mas não literatura. Muita gente publica, mas não quer dizer que seja escritor. Até o Paulo Coelho é escritor. O Sarney é escritor. Se eles são escritores, eu sou outra coisa, menos escritor.

Stocker – Mas José Sarney faz parte da Academia Brasileira de Letras...

Milton – E o maior poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, ficou fora da Academia.

Stocker – Já pensou em vestir o Fardão dos Imortais?

Milton – Não! Isso nunca passou pela minha cabeça. Eu me considero totalmente mortal.

Stocker – Mas muitos almejam...

Milton – Nada contra. Mas a Academia, seja aqui ou em qualquer outro lugar não melhora o livro do autor, não salva o livro. Ela existe, mas nunca pensei nisso.

Stocker – Seu mais recente livro ‘A Cidade Ilhada’, são contos escritos especificamente para a obra ou é um apanhado de coisas já publicadas?

Milton – Na verdade é uma seleção de contos que publiquei nos últimos 18 anos. Tem dois inéditos e mais um que havia publicado somente na França.

Stocker – Os textos foram republicados sem alterações?

Milton – Todos os contos foram reescritos para a coletânea.

Stocker – Teve contos que não publicou neste livro?

Milton – Teve outros contos que ficaram de fora.

Stocker – Está guardando para outras publicações de contos?

Milton – Ficaram de fora porque merecem ser esquecidos (risos).

Stocker – Está lendo algum livro no momento?

Milton – Estou! Na verdade estou lendo sobre a história de Cuba. Estou viajando pelas ilhas Cubanas. É uma pesquisa para o romance que estou escrevendo.

Stocker – O título será ‘Dois Irmãos Cubanos’? (risos).

Milton – Não. É que tem um personagem cubano na história.

Stocker – Para finalizar, me diga se tem alguma opinião formada sobre os erros nas publicações do MEC?

Milton – Não! Não posso emitir opinião sobre algo que não li. Mas confesso que não me incomoda. É uma questão pontual.

Stocker – Uma mensagem final...

Milton – Seguindo o raciocínio, o que me incomoda é o caminho da educação em nosso país. Para refletir: como poderemos ter uma boa educação com professor ganhando R$ 1.200 para dar aula em salas superlotadas? Temos cerca de 5.600 municípios no Brasil. Será que estes 5.600 prefeitos fazem os investimentos que devem ser feitos na educação? Será que eles, realmente, estão preocupados com o ensino em suas cidades? Eles foram eleitos para isso. Eles recebem para isso. Portanto, temos que cobrá-los. Eu preciso destas respostas antes de falar sobre erros pontuais.

Stocker – Muito obrigado Milton. Foi muito bom.

Milton – Foi um prazer.

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